A inquietude que acomete os profissionais graduados de alto escalão em certos momentos da carreira parece ter tido uma pausa nestes tempos de recessão. Se até alguns anos o convite para atuar numa empresa por melhores salários e benefícios soava como um irresistível canto de sereia, hoje os executivos têm pensado pelo menos três vezes antes de optar pelo desconhecido. A nova onda de relutância está exposta em pesquisa recém-concluída pela Korn/Ferry International, de Los Angeles, com mais de 70 escritórios em 36 países. Dos 300 profissionais de recrutamento entrevistados, 70% responderam que enfrentavam alguma ou muita dificuldade em atrair candidatos para um novo posto. "Há uma menor disposição para correr riscos", diz Flávio Kosminsky, sócio diretor da Korn/Ferry.
Os caçadores de talentos, sustenta a pesquisa, estão se deparando com uma certa aversão a jogos imprevisíveis, mesmo se a mudança implicar em cargos melhores e salários maiores. Além de se calçar melhor com evidências de que o movimento de troca para uma cultura corporativa diferente vai fazer sentido, os profissionais estariam dando preferência às chamadas "blue chip companies" - empresas grandes, de marcas estruturadas, menos sujeitas a modismos e com maior grau de estabilidade. Aos olhos de um candidato de nível sênior, por exemplo, tais companhias têm 84% das preferências, contra apenas 16% de empresas menores, ainda que com alto potencial de crescimento.
A atitude de permanecer a bordo de embarcações aparentemente mais robustas e, portanto, menos sujeitas aos sabores das marés, não ocorre neste momento por acaso, na opinião de Kosminsky. O susto com a bolha da internet e a queda livre de ações nos últimos três anos fizeram com que os executivos se dessem conta do tamanho do risco que estavam correndo. Como resultado, também apontado pela pesquisa, o vaivém de cargos parece agora muito mais orientado segundo a lógica do dinheiro no bolso, sem dar tanta importância para bônus e ações. Nos pacotes de negociação firmados entre empresas e empregados, sublinha o estudo, 68% procuram mais "cash" e menos opções em ações como forma de remuneração, enquanto somente 5% prefere o contrário.
Especialmente sobre os executivos brasileiros, Kosminsky ressalta que havia uma propensão histórica a correr mais riscos e pensar no curto prazo, até mesmo por conta das variações nos humores da economia. Profissionais maduros e experientes, no entanto, continuam com a tendência de sondar a solidez da proposta com extremo cuidado. "Pessoas muito bem qualificadas sabem o seu valor e o que cada movimento seu significa na carreira", observa ele.
Num cenário de incertezas econômicas, em que os executivos se apegam como nunca a um pássaro e relutam em trocá-lo não por dois, mas três voando, é preciso repetir as perguntas de sempre, além de acrescentar outras, antes da decisão. Kosminsky aconselha a levar em consideração as experiências e habilidades que serão ganhas no novo posto; se a empresa em questão investe em treinamento e desenvolvimento; e o real valor da ciranda de cargos. Ser promovido de gerente a diretor para uma empresa de menor porte, por exemplo, nem sempre pode significar um salto hierárquico. "É a velha pergunta, se você quer ser um diretor qualquer ou gerente de uma companhia sólida. Cabeça da sardinha ou rabo do tubarão", compara Kosminsky, acrescentando que, mesmo com as ressalvas da nova realidade de mercado, profissionais de nível médio mostram maior apetite pelo risco. Para ele, deixa-se um emprego, quando o outro é comprovadamente mais excitante e oferece mais oportunidades. "Mas tudo sempre depende do momento de cada um", pondera.
A sócia-diretora do Career Center, Luciana Sarkozy, também tem notado que os executivos estão mais hesitantes para mudar de lugar, com reflexões de fazer inveja a Kasparov antes de aceitar um convite. Além de avaliar a solidez e a estratégia da companhia no Brasil, os profissionais querem saber o seu grau de autonomia, com quem vão trabalhar ("um bom partner"), e se a nova função implica mais aprendizado. "A mudança tem de seguir uma linha lógica. É preciso tomar cuidado para a carreira não virar um grande patchwork", alerta Luciana. Movimentos na carreira podem ser tão irreversíveis como um grande tabuleiro de xadrez, alertam os consultores. Vence o jogo quem sabe a hora certa de dar o xeque-mate. |
|